01/01/2000

Ética Neopentecostal e Espírito do Consumismo

“A pobreza continua sendo uma virtude em todas as religiões da humanidade, inclusive a protestante de talho calvinista, que é a mais pragmática de todas mas não deixa de ser cristã”. Carlos Heitor Cony, in “A pobreza da pobreza”, Folha de S.Paulo, 27/07/99, p.2 (1º caderno)


O objetivo deste trabalho é apresentar um resumo da obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” e relacionar alguns temas centrais da tese weberiana com observações prévias (não aprofundadas) sobre ênfases doutrinárias e práticas encorajadas pelas denominações neopentecostais brasileiras da década de 90.


Podemos iniciar ressalvando — numa preocupação de contraste prévio com Marx — que Weber defende em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” uma tese (subsidiária) de que apenas bases materiais não teriam sido suficientes para a gênese do capitalismo moderno, e que a forma de encarar a vida do Protestantismo, em particular de seu ramo calvinista, foi um dos fatores que liberaram as energias sociais na direção da formação capitalística.


Aqui é importante insistir na cautela e frisar que:


1. Weber não esposa a afirmativa idealista de que a doutrina de Calvino gerou o Capitalismo, numa lógica ingênua do tipo “essa idéia específica causou esse resultado histórico, sem qualquer influência material”, uma interpretação rasa e simplista de sua tese que se generalizou;


2. Weber também ressalvou claramente a diferenciação entre o ideário do reformador Calvino e o sistema de interesses ideais e materiais do calvinismo posterior;


3. Bases materiais isoladamente não poderiam gerar o sistema capitalista, repetimos, o que fica evidente para Weber pelo exemplo da cidade de Florença, centro comercial e bancário do mundo, que não se desenvolveu capitalisticamente, ao passo que colônias da Nova Inglaterra que quase tiveram de regredir à economia de troca pela escassez de dinheiro em circulação manifestavam claramente, já no século XVII, o espírito do capitalismo.


Sua pergunta inicial é: por que o capitalismo desde logo não se desenvolveu em outros lugares que não o norte da Europa Ocidental e América do Norte? Por que não também na China ou na Índia, por exemplo?


Weber define o que entende por espírito do capitalismo, não como mero desejo de ganho, algo que sempre existiu (aqui o autor menciona as empresas aventureiras, que tiram seu lucro do espólio na guerra; ou de posições privilegiadas no aparelho de Estado que permitem corrupção), mas como um sistema marcado pela: 1. separação da economia doméstica; 2. contabilidade; 3. organização racional do trabalho.


O espírito capitalista é toda uma forma de vida que elege a aquisição não como algo meramente útil, mas um imperativo que, irrealizado, não denota tolice, mas falha no cumprimento de um dever. A marca característica do capitalismo é o racionalismo formal, a postura permanente de cálculo de custo/benefício no dia-a-dia, a ausência de constrangimentos morais e religiosos inibidores do acúmulo. Uma vez delineado o que se entende por capitalismo, Weber investe na análise do que vem a ser a “ética protestante”, investigando especialmente o Calvinismo em sua doutrina central: a Predestinação.


Grosso modo, tal doutrina assevera que Deus, em sua absoluta soberania e desígnios insondáveis, escolheu antes da fundação do mundo alguns para o gozo eterno e louvor de Sua glória, ao passo que outros foram designados para a danação eterna. Uma das conseqüências psicológicas dessa severa doutrina é a solidão do crente: sua salvação não depende da Igreja, nem do clero, nem dos sacramentos, o que acaba desembocando num individualismo essencial.


A ortodoxia calvinista mostrou-se incapaz de lidar com o problema pastoral de dar resposta a essa insegurança em matéria tão crucial à existência. Uma primeira solução foi simplesmente ensinar que todo crente tinha o dever de considerar-se salvo. Mas o resultado não intencional da doutrina mestra do Calvinismo é o ASCETISMO INTRA-MUNDANO, a transformação dos fiéis em “monges” mergulhados neste mundo sem deles gozar, agentes auto-disciplinados dedicados inteiramente a servir à Glória de Deus em suas tarefas seculares, fazendo o melhor, ganhando o máximo possível, sem jamais ceder à tentação de usufruir dos prazeres disponibilizados pelo acúmulo material. A “certitudo salutis” vem desse “wordly asceticism”.


A confiança de ser um dos eleitos é conquistada pela via desse ativismo, da ascese que não se recolhe a mosteiros, mas elege o mundo, agora uma arena desencantada, como o palco de sua glorificação de Deus. O meio para se obter segurança de salvação é a entrega a uma vocação . A salvação não vem por obras, Calvino repete Lutero. Mas as obras garantem o status de eleito, retruca o atormentado calvinista.


O desencantamento do mundo, ou eliminação da magia do mundo, é outro aspecto importante da cosmovisão protestante. Deus é transcendental, e todo e qualquer ritual e emocionalismo é visto com desdém e desconfiança pelo calvinista. Assim, o mundo é parte da ordem criada por Deus, e uma das formas de conhecê-lo é conhecer a natureza. Por esse breve esboço demonstra-se a congruência demonstrada por Weber entre ética protestante e espírito do capitalismo.


Vimos rapidamente alguns pontos centrais de sua tese: 1. o ascetismo intra-mundano, a dedicação de toda a vida a uma vocação para a Glória de Deus combinada com a abstinência dos prazeres e lazeres (industriosidade + frugalidade), desmontou as amarras e constrangimentos espirituais contra o acúmulo e favoreceu a organização racional e sistemática (capitalista) da atividade humana; 2. o desencantamento do mundo impulsionou a pesquisa científica; 3. a “solidão essencial” do calvinista abriu caminho para o individualismo e para as relações negociais despersonalizadas (contratuais) do capitalismo moderno.


A PERSISTÊNCIA DO DESAFIO PASTORAL


Se antes a certitudo salutis foi alcançada pelo ascetismo intra-mundano em sua entrega total do indivíduo à vocação, de onde virá tal segurança agora, num mundo em que (a) o trabalho é drasticamente posto em xeque , ou seja, a disciplina e entrega à vocação não dão mais conta do desafio de manter uma vida estável e (b) as seduções do lazer, do entretenimento e do prazer são múltiplas, bombardeando via mídia a todos por variados e constantes meios, o que implica numa dificuldade imensa de resistência a seus apelos?


Neste ponto, e antes de respodermos à pergunta acima, é importante frisar o trágico deste momento histórico em que o valor do trabalho se derrete. Vivemos o calor do desemprego, do subemprego e do trabalho irregular. Tudo que horrorizava à ética profissional puritana:


“ ‘Fora de uma vocação bem sucedida, as realizações do homem são apenas casuais e irregulares, e ele gasta mais tempo na vadiagem do que no trabalho’ [...] ‘ele (o trabalhador especializado) efetuará seu trabalho ordenadamente, enquanto um grupo [sic] permanecerá numa contínua confusão, não conhecendo sua atividade, nem tempo nem lugar... razão pela qual ter um ofício certo é o melhor para todos’. O trabalho irregular, que muitas vezes o operário comum é obrigado a aceitar, é, muitas vezes, um inevitável, mas, sempre um indesejável estado de transição. Assim, falta à vida do homem sem ofício aquele caráter sistemático e metódico requerido, como vimos, pelo ascetismo secular”. EPEC, P.115 (citações de Baxter)


Com essa menção, respondemos que, em nossos tempos, o sentimenro de garantia de salvação é alcançado por um alto nível de consumo, combinado ao pagamento regular de dízimos e ofertas a um Deus cuja paternidade legitima o desfrute, aqui e agora, daquilo que antes era sinal de adoração a Mamom (depois de conceder por Seu poder a conquista da riqueza).


Pode-se especular que essa mudança tenha alguma relação com dois fenômenos opostos: 1. por um lado, a riqueza excessiva, especialmente nos EUA, de formação protestante, e entre as elites dos países periféricos, a qual demanda escapes para a culpa de ser próspero num mundo repleto de pobreza. A Teologia da Prosperidade elimina a culpa da riqueza. Mais do que isso, Deus abençoa a ostentação de riqueza, que é um direito de seus filhos. Afinal, eles são “filhos do Rei”; 2. de outro, a frustração, especialmente das classes médias, na periferia do mundo regido pela globalização neoliberal, pela incapacidade de ascender socialmente seguindo o receituário tradicional (industriosidade + frugalidade). A Teologia da Prosperidade diz que a riqueza virá, se dermos dízimos, conquistando assim os favores de um. Deus que “paga dividendos”. Usando ironia, poderíamos dizer que tais mudanças representam uma transição de modelo: de “industrial”/protestante para “financeiro”/neopentecostal.


Podemos citar aqui o trabalho de Ricardo Mariano, cuja tese “Neopentecostalismo: Os Pentecostais Estão Mudando” (1995) obteve amplo espaço de divulgação na grande imprensa. Em matéria intitulada “‘Novos crentes’ valorizam riqueza material — tese mostra que a teologia das igrejas como Universal do Reino de Deus dão destaque à felicidade terrena” (Folha de S.Paulo, 03/07/95, p.1—9), a repórter Cláudia Trevisan sintetiza assim um dos principais posicionamentos de Mariano:


“Segundo ele [Mariano], essas igrejas [Renascer, Universal do Reino de Deus, Nova Vida, Internacional da Graça de Deus, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra] se adaptaram às promessas da sociedade de consumo, aos apelos do lazer e às opções de entretenimento criadas pela indústria cultural. ‘Essa religião, ou se mantinha sectária e ascética, aumentando sua defasagem em relação à sociedade e aos interesses ideais e materiais dos crentes, ou fazia concessões’, diz a tese”.


Se a ética protestante foi co-geradora do espírito capitalista, para depois ser por ele completamente repelida, ou melhor, desprezada como irrelevante em suas raízes religiosas, agora o turbocapitalismo em sua fase ultraconsumista se lança com toda a força de sua influência sobre a “religião protestante”, e é co-genitor de profunda transformação doutrinária. Weber o “profetizou”:


“De acordo com a opinião de Baxter, preocupações pelos bens materiais somente poderiam vestir os ombros do santo ‘como um tênue manto, do qual a toda hora se pudesse despir”. O destino iria fazer com que o manto se transformasse numa prisão de ferro.” EPEC, p.131


O que se vive no neopentecostalismo da teologia da prosperidade é pós-protestante em mais de um aspecto . Um deles é a base ideológica para a vida econômica cotidiana.


A REVOLTA: MAIS INTRA-MUNDANO, E AGORA “GOZANDO” DO MUNDO


O consumo abençoado não substitui a santa disciplina para o trabalho, mas representa um rompimento da interdição de gozo da riqueza acumulada disciplinadamente (e uma queda de confiança no trabalho assalariado ). Representa a capitulação do ascetismo, que não é, em si, negativa. Poderia ser uma oportunidade de sadia abertura ao prazer, de valorização da qualidade de vida.


Mas a revolta anti-ascética, como se processou, mais se assemelha a um “estouro de boiada” em que a neurose das proibições (não se divertir, não praticar esportes, não gastar mais do que o estritamente necessário, sem falar nos tabus sexuais) acaba desembocando numa obsessão doentia — equivalente — de aquisição material. Essa revanche do desejo impulsiona os crentes ao usufruto das boas coisas do mundo (traduz-se: compra de bens de consumo).


Um mundo, vale dizer, já não mais desencantado, e aqui encontramos outra virada: a “revanche do encantamento”, relacionada à quebra do consenso da sociedade de fim de século em torno da razão e da ciência, à perda da confiança no racionalismo. A Ética Neopentecostal por excelência é a aplicação combinada da Teologia da Prosperidade e da doutrina da Batalha Espiritual.


A primeira é uma ênfase no aqui/agora que põe em segundo plano temas tradicionais do discurso protestante (arrependimento de pecados, graça salvadora, reconciliação com Deus pelo sacrifício de Cristo na Cruz) e destaca agressivamente a possibilidade da resolução imediata de problemas e de se ter uma vida saudável e próspera. A promessa central é que todo crente tem direito de gozar saúde e prosperidade nesta vida:


“Nós, como cristãos, não precisamos sofrer reveses financeiros; não precisamos ser cativos da pobreza ou da enfermidade! Deus proverá a cura e a prosperidade para Seus filhos se eles obedecerem aos Seus mandamentos... Deus quer que Seus filhos... tenham o melhor de tudo”. Kenneth Hagin, Novos Limiares da Fë, Graça Editorial,p.66


A POBREZA COMO MALDIÇÃO


Fica a indagação sobre em que medida a opinião de Carlos Heitor Cony, que serve de epígrafe para este trabalho, pode se sustentar em nossos dias. Se para a “religião protestante de talho calvinista” a pobreza foi vista como virtude , para a “religião pós-protestante de talho neopentecostal” a pobreza do crente não é menos que falta de fé, uma contradição em termos.


A pobreza do não crente é o fruto de sua não conversão, portanto, um problema de sua exclusiva alçada (ele está “entregue ao demônio da bebedeira”, ou “é escravo dos demônios da umbanda”, e assim por diante).


Um tema para outros estudos é em que medida essa revolta canalizada, sob cabresto do neoliberalismo, reforça o sistema capitalista (especialmente o periférico) e enfraquece uma postura política evangélica de transformação social. Outra área para estudos posteriores é a relação entre o reencantamento do mundo e a enorme força da doutrina de Batalha Espiritual entre os evangélicos neopentecostais.


BIBLIOGRAFIA


Weber, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1989.


Bourdieu, Pierre. “Gênese e Estrutura do Campo Religioso” e “Uma Interpretação da Teoria da Religião de Max Weber — (Apêndice I)”. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1992, pp. 27 a 98.