Cláudio Abramo, um cético apaixonado

Ricardo Muniz | 03/12/2002


Cláudio Abramo foi o jornalista responsável pela ampla modernização das redações do Estadão e da Folha de S.Paulo. Trotskista, sempre fez questão de frisar que compreendia e trabalhava conforme a natureza do capitalismo. Admitia que deixara de fazer tudo para fazer só o jornal, num brutal ritmo que o forçou a abrir mão até da militância política.


Mas não admitia falta de opinião própria. Uma reportagem, para Abramo, tinha de combinar agudo senso de observação com a presença de referenciais universais. Ao mesmo tempo, serenamente reconhecia a engrenagem da grande imprensa. “Quando um jornalista vai trabalhar numa empresa, deve perguntar o que é objetivo, segundo aquele jornal.”


Apaixonado pela profissão, ao fim de sua carreira queixava-se dos jornalistas que observava: “estão fazendo uma coisa cuja natureza intrínseca e cuja beleza não enxergam”. Por diversas vezes recomendou ceticismo, investigação e reconhecimento das complexidades como elementos necessários a um exercício digno do ofício.


Para o autoritário comandante de redações, que não teve paciência para ensinar nas salas de aula da Cásper Líbero e da ECA, “é muito difícil improvisar jornalistas através de cursos em escolas canhestras, com professores em muitos casos vítimas da teorização cretinizante ou do pragmatismo castrador”. Mas defendia o curso e a regulamentação da profissão, ainda que com modificações, pois desconfiava da cada vez maior oposição dos patrões a um e outra.


Com uma pitada de amargura, Abramo se perguntava qual o objetivo dos jornalistas brasileiros, e como se estivesse seguro da resposta – fazer carreira, ganhar dinheiro –, despedia-se, protestando: “Então já não sou mais jornalista, já pertenço a uma espécie em extinção.”

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