A ridicularização dos pavores burgueses

Karen Cunsolo


As estranhezas do cotidiano burguês são captadas de forma similar por Júlio Cortázar e Luis Buñuel. No conto "Casa Tomada" (in "Bestiário", 1947), o escritor argentino conta a história da fuga de um casal de irmãos de sua própria casa, supostamente ocupada por seres ocultos. O longa "Anjo Exterminador" (1962), de Buñuel, trata dos instintos selvagens que um grupo da alta sociedade mexicana revela após ser misteriosamente encurralado numa sala de estar por algum tempo.


O mistério, nas duas obras, não se revela através do sobrenatural; pode-se até arriscar dizer que o absurdo das suas histórias está justamente no fato de representarem o humano da maneira mais crua possível. O grupo de amigos na mansão, do filme, e os irmãos, do livro, se unem por não terem a menor idéia do que está acontecendo com eles, sem esboçar, ainda assim, qualquer tipo de reação drástica.


O livro de Cortázar em que está contido "Casa Tomada" tem outros contos que tratam surrealisticamente da resignação humana perante o estranho. "Carta a uma senhorita em Paris" é um pesadelo kafkiano, em que um homem revela à amiga, com desconcertante naturalidade, que está, há alguns dias, cuspindo coelhinhos vivos. Definitivamente, compreender é uma pretensão.


O escritor argentino se utiliza de uma narrativa circular, que mantém constante a tensão do leitor. Mesmo antes da primeira invasão, sabe-se que algo sinistro permeia aquele ambiente. A aparente prepotência do narrador-onisciente – que relata os fatos segundo suas perspectivas – e sua latente relação incestuosa com a irmã Irene (que, passiva, tece, como uma Penélope), são mais alguns elementos que comprovam a semelhança entre Cortázar e Buñuel: as bizarrices cotidianas são ainda mais assustadoras quando se trata dos burgueses, sempre tão normais.


Poder-se-ia dizer que o filme é mais alegórico na medida em que não há portas nem amarras que prendam o grupo de amigos. No conto a ameaça é mais palpável. Nesse caso, a questão que se coloca é se realmente a casa dos irmãos é invadida (em nenhum momento algum deles vê os usurpadores) ou se a atitude dos dois não passa de um medo característico daqueles que têm o que perder.


Apego material (ou estético), aliás, tem limite mesmo entre as melhores famílias: na impossibilidade de manter o nível, os amigos da casa da rua Providência fazem suas necessidades sobre móveis finos, libertam suas perversões sexuais e trocam ofensas dignas de "Os Esquecidos", denunciados por Buñuel anos antes. Os irmãos argentinos, por sua vez, preferem abandonar a propriedade a vê-la nas mãos de outros, ou dividi-la com parentes, como sugere suavemente o narrador. Enfrentar o estranho, combater as forças malignas com as próprias mãos, nem pensar.


O conforto e a proteção da propriedade (no caso, da família e da tradição também) aparece em sinais invertidos nas duas obras. De uma casa não dá para sair; na outra já não dá mais para entrar. Em ambas, a figuração de uma mãe perversa, que acolhe, mas em algum momento relega ao abandono.


Ninguém tem notícia dos irmãos argentinos. Mas não seria de se estranhar se os encontrássemos na mesma igreja em que os personagens de Buñuel se vêem presos pela segunda vez.

Comtudo - Conteúdo Jornalístico, Opinativo, Artístico e Especulativo