Três poemas

Márcio Juliboni | 23/09/2005


Sem título 2
Nem a pedagogia das redes,
que compreendem apenas aquilo
que não lhes escapa.
Nem a pedagogia dos grandes montes,
que, assentados em sua altivez,
enxergam tudo como miudezas.
Fui educado pela pedagogia do esmeril.
Pensar é desbastar o mundo
até o tamanho de minha compreensão.
Sou a medida de minhas idéias.
Para tudo que entendo,
tanto mais se perde.

Poema 3
"Inversão poética"
A leveza sedimentou-se
ao rés-do-chão,
de onde toda pequenez se agiganta.

Sem título
Meu pesar é glândula que acumula
o que os sentidos não nomeiam.
Quando muito, poreja pelas mãos,
manchando folhas de papel
com essa bílis negra.
Meu poema é secreção.
Meu canto aquém-se à garganta.
Reflui pelo corpo, macera as entranhas.
Pudessem os rins filtrar os olhos!...
Tudo o que vejo me intoxica.
Sorvo a realidade por peristAutismo...
Há muito busco a toxina que me fadiga os músculos,
mas o intangível também se retesa.
Minha alma sente cãimbras de tristeza
e o oco da boca é apenas o abandono de uma palavra
que desistiu de chegar.
A consciência é uma solitária a roer-me os ânimos,
porém, já testei a ineficácia da utopia como vermífugo...
pudesse trocar de certezas como o pulmão troca de gases,
ou aliviar-me com a pragmática leviandade da bexiga...
minha crença é um membro amputado
do qual minha mente não se esquece.
Por vezes, sinto cócegas de acreditar,
mesmo sabendo que o membro não está lá.
Claudico, duvidando de meus ex-pasmos.

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