12/04/2007

reverendo Z

Terceiro sermão do reverendo Z.

Em que, após valente estréia, já demonstra estar na defensiva

O terceiro sermão demorou semanas para sair, porque eu não tinha o que dizer e porque processava críticas, do melhor nível, que recebi de um raro receptor dos dois primeiros. Foram pitos elegantes do pastor Y., direcionados mais ao prefácio do que às mensagens em si. Não posso inferir, por culpa daquela omissão, se ele concorda ou despreza minhas reflexões sobre verdade e liberdade e sobre a superioridade do convívio entre amigos nas rodas de bar para o aprimoramento espiritual. Ficou a sensação de que o que incomodou mesmo foi acima de tudo a parte raivosa, em que menciono os vaidosos, os mafiosos e os mercadores, colocando-me confortavelmente como um franco-atirador de pura alma a apontar o dedo para a classe dos pastores. Disse a ele: "quem sou eu, quem sou eu". Desnecessário dizê-lo, até, pois ele sabe que não sou grandes coisas, nem flor que se cheire.

Ele me exortou: é loucura um sermão-monólogo. Como o admiro desde minha distante juventude, retruquei tão-somente que já vi muitos, tantos e variados pastores que só cuidaram de entregar monólogos por toda sua carreira eclesiástica. Nas entrelinhas de minha carta, queria defender meu direito de também monologar à vontade, o que passo a fazer agora com meu terceiro sermão. Antes, no entanto, registro apenas que, pensando bem, devo discordar totalmente do pastor Y. ressalvando mais uma vez que tenho carinho por ele: Sim, todo sermão é monólogo e a bela idéia de uma "comunidade hermenêutica" se equipara ao ingênuo conceito de democracia guiada pelo interesse público.


É empírico o meu veredicto. Nunca vi um pastor que aceitasse placidamente que um fiel levantasse a mão para perguntar ou discordar durante a sacra mensagem. Digo mais: crente nenhum, no domínio de suas remanescentes faculdades mentais, tem coragem de fazer isso, pois é indício de inaceitável rebelião. Não há apartes no parlamento dos fiéis. Não nos sermões presenciais, digamos assim, não naquele momento isolado. Depois, no decorrer do tempo, pode até haver algum debate, mas são raros os dispostos a arrazoar, especialmente com gente que não tem carteira da corporação.

Para encerrar meu relato sobre o curto diálogo com o pastor Y. sobre monólogos, digo que ele também explicitou que seria um prazer almoçar comigo, mas quando sugeri uma data, calou, e seu silêncio perdura até o dia de hoje.

Este vazio serviu de gancho para pensamentos que podem ser úteis. De fato, melhor do que simular é calar. Sei que levar ao pé da letra essa idéia acabaria com o ofício de jornalista, parlamentar, acadêmico e pastor, o que não retira, contudo, a verdade do versículo das Escrituras em que se lê: “Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio” (Provérbios 17:28). O santo monge Tomás de Kempis escreveu em A Imitação de Cristo (livreto de 1441 que pode ser adquirido ainda hoje por R$ 9,90): "Renuncia ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão (...) Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma".

Sei que caio em contradição (o que é bastante comum), pois estou nesse instante contribuindo para a hiperinflação de palavras que assola o mundo. Mas o faço com boa intenção. Quero dizer à minha congregação invisível que é preciso selecionar, sempre. A urgência da seleção enobrece um dos poucos ofícios que respeito, que é o de editor (outros afazeres que reverencio são os do médico, do humorista e do franco-atirador). Repito o que já disse em sermão anterior: "Examinai tudo, retende o que é bom" (1Ts 5:21). O que é bom, no final das contas, é necessariamente bem menos do que o estoque que se examina. Com experiência, com memória histórica, já é possível ignorar certas fontes de palavras e limitar o universo de pesquisa. Assim, é possível conciliar Tomás e Paulo: renuncia ao desordenado desejo de saber, ordena tua curiosidade, põe tudo à prova, retém o que serve.

O outro lado do ensinamento é que não deve haver vetos prévios ao exame das coisas, a não ser os impostos por cada um. Pastor Y. me lembraria que Paulo usa "examinai", conjugação do verbo "examinar" para "vós", e não para "tu". A prerrogativa do exame não é do indivíduo, mas da coletividade, quiçá da tal comunidade hermenêutica. Eu concordo, pastor Y. Mas isso não invalida minha empreitada solitária, a meu ver. Deixem-me falar, ponham à prova juntos-ao-mesmo-tempo ou juntos-cada-um-por-sua-vez e retenham o pouco que prestar.

Finalizo com uma aplicação prática, componente que faltou às mensagens anteriores. Interrompa um sermão no próximo domingo, invoque a comunidade hermenêutica e depois me descreva o que aconteceu.