26/07/2002

Ferramenteiro da arte, com graça

O pai Josué, descendente de índios cariris, construía com as próprias mãos máquinas dosadoras de cloro na água, e disso tirava o sustento da família. A mãe, Constança Guedes, cantou para Villa Lobos, era amiga de Mario de Andrade, deu aulas para Milton Nascimento.


“Eu sou cantor”, diz Edu Viola, também conhecido por Eduardo Rodrigues de Oliveira e Silva, formado em arquitetura na USP, compositor (atualmente musicando Antígona para o teatro) e luthier (construtor e reparador de instrumentos musicais). No currículo, o restauro da coleção de violas de Mario de Andrade.


“Quando eu era pequeno fui escolhido por minha mãe para ser cantor”, conta Edu, explicando que era assim que Mozart recomendava que se fizesse. A “eleição” do aprendiz deveria acontecer o mais cedo possível. A falta de especialização em um instrumento contribuiu para que Edu rompesse a reverência, lançando-se ao ofício de luthier. “São meras ferramentas. Ser cantor me deixou com menos medo dos instrumentos.”


Teria o encaminhamento precoce às artes – e a posterior decisão de abandonar a arquitetura e viver da composição e dos instrumentos –, dificultado o sustento cotidiano?


“O artista vive penosamente, se for o caso, vai perdendo os dentes. E não tem essa de ‘trabalhei, quero férias’.” Mas viver de arte não se limita à questão financeira. “No sentido mais profundo, sim, estou vivendo de cultura.”


Edu Viola aponta para um rabecão, uma espécie de contrabaixo. “Quem encomendou ia pagar R$ 3 mil, mas queria um contrabaixo. Quando soube que com a madeira disponível o instrumento só poderia dar num rabecão, jamais um contrabaixo, ele cancelou. Recebi R$ 150.”


Diante do prejuízo, a consolação: “Estive quatro meses empenhado, fazendo uma coisa graciosa.” Já recebeu excelentes ofertas pelo instrumento, mas agora, carinhosamente guardado na cozinha, o rabecão virou membro da família.