23/12/2006

Duas versões para um mesmo Natal

Natal versão original: cristãos celebram o nascimento de Jesus como o momento histórico em que Deus se fez humano para reconciliar a humanidade consigo.  Como escreveu a intelectual católica francesa Simone Weil, é o instante em que Cristo abriu mão de sua divindade real e convidou o homem a abrir mão de sua divindade imaginária.


Natal versão adaptada: crianças esperam ansiosas por seus presentes ao pé do pinheiro, crentes na boa vontade de Papai Noel, velhinho róseo, risonho e generoso que mora no Pólo Norte, mas dá conta de circular pelo mundo todo com seu trenó puxado por renas voadoras.


Uma distinção fundamental entre as duas narrativas está justamente nos presentes.  Não que o bebê Jesus, nascido em Belém em ano anterior ao início oficial da Era Cristã, não os tenha recebido, pois, diz a Bíblia, sábios do Oriente lhe trouxeram ouro, incenso e mirra.


É que o foco, na primeira versão, era a pessoa de Jesus, aliás personagem também honrado por muçulmanos, mas tão-somente como grande profeta, jamais como Emanuel ou Deus Conosco.  Diz o Alcorão, 3ª surata, verso 45: “Ó Maria, por certo que Deus te alvíssara novas felizes com Seu Verbo, cujo nome será Jesus, o Messias, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro”.


Já o foco, na versão dois, são os presentes – embora o inspirador de Papai Noel, São Nicolau, fosse mais chegado a distribuir dinheiro em espécie. “Obviamente, vencer a Rua 25 de Março é difícil”, diz o teólogo Fernando Altemeyer, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Esse fetichismo da compra revela um aspecto patológico de nossa sociedade, que é a submissão à mercadoria.”


GUERRILHA
As reações críticas de cristãos de diferentes matizes à subversão natalina são parecidas.  A estratégia é quase de guerrilha, de aproveitar brechas na hegemonia inimiga. “Posto o cenário, dado o simbolismo colocado pelo tal espírito natalino, o esforço dos religiosos é insistir em apontar para o verdadeiro personagem central”, explica Altemeyer. “A tendência não é mais ficar só criticando essa deturpação do Natal como uma obra demoníaca”, diz o teólogo.


Neuza Itioka, presidente do Ministério Ágape de Reconciliação, uma missão evangélica, pensa parecido. “Abolir qualquer celebração, como alguns já estão fazendo, não é o caminho”, diz. “Se queremos combater essa influência, é preciso substituí-la.”


Neuza lembra que aprendeu de seu pastor na Igreja Metodista Livre, desde pequena, que a troca de presentes no Natal é uma forma positiva de se recordar que o maior presente de todos foi a vida de Jesus. “Seja cristão, seja não cristão, quem visita orfanatos e favelas, por exemplo, e distribui brinquedos ou cestas básicas sem pedir nada em troca, captou o sentido da festa melhor do que a maioria.  A mensagem central do Evangelho é dar, não é receber, dar não só coisas, mas doar a própria vida.”


DOIS NATAIS
“A cultura secular vem insistentemente lutando para retirar Cristo do Natal, transformando-o numa celebração não religiosa”, avalia Ricardo Barbosa, teólogo e pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. “Mas acredito que a melhor forma de preservar Cristo no Natal não é lutar contra árvores, Papai Noel ou consumo, mas lembrar a centralidade de Cristo, a encarnação, a dádiva de Deus para a humanidade”, diz. “O fato é que teremos sempre dois natais.”


Para Lourenço Stelio Rega, diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, o problema nem é mais a mercantilização do Natal. “Hoje até Deus é transformado em mercadoria, se torna servo para atender o homem-deus”, afirma. “Mercadores da fé se aproveitam para colocar a mão no bolso do fiel, transformando a Igreja num grande negócio.”


JESUS NÃO NASCEU NO NATAL
As polêmicas em torno do Natal são quase tão antigas quanto a comemoração em si.  No século 2º, os cristãos orientais o celebravam em 6 de janeiro.  Em 354 igrejas ocidentais, incluindo as de Roma, celebrava-se o Natal em 25 de dezembro, data erroneamente considerada como o solstício do inverno no hemisfério Norte (na verdade, 21 ou 22 de dezembro, dependendo do ano), em que os dias começam a ficar mais longos.  A data era consagrada ao Natalis Invictis Solis ou “aniversário do Sol invencível”, principal festa do mitraísmo – culto especialmente popular entre os soldados romanos.


As Igrejas orientais bateram pé no 6 de janeiro e acusaram suas irmãs de idolatria.  A briga durou até o fim do século 4º, quando o 25 de dezembro foi adotado no Oriente.


Clemente de Alexandria escreveu em 200 d.C. sobre possíveis datas de nascimento de Cristo – 19 de abril ou 20 de maio –, e aproveitou para cravar seu próprio palpite: 17 de novembro. “Todos estão conscientes de que Jesus provavelmente não nasceu em 25 de dezembro.  Ela é uma convenção apenas, aceita pela Cristandade desde tempos antigos”, diz Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie.


Quanto ao ano de nascimento do Messias, não há alma que saiba ao certo, mas todos têm certeza de que o monge Dionísio Exiguus se embananou com as contas, no século 6º, quando fixou o início oficial da Era Cristã.  Como o Evangelho de Lucas menciona o nascimento de Jesus no fim do reinado de Herodes, o Grande, historiadores dizem que o ano correto está entre 8 e 6 a.C.  Mas também há quem mencione razões para acreditar que tenha sido entre 2 e 1 a.C.  Para Clemente, foi em 3 a.C.


INSPIRADOR DO PAPAI NOEL ERA SANTO PROTETOR DOS COMERCIANTES
Não haveria Papai Noel como o conhecemos sem São Nicolau, bispo de Mira, proveniente de Petara, na Ásia Menor (Turquia). É a imagem de São Nicolau, Santa Claus nos países anglo-saxões, que originou, no século 19, a figura hoje onipresente do velho corado, obeso e de barba branca, trazendo nas costas um saco cheio de presentes. Os trajes vermelhos foram impostos por uma campanha publicitária da Coca-Cola, em 1931.

São Nicolau nasceu na segunda metade do século 3 e morreu em 6 de dezembro de 342. Foram-lhe atribuídos vários milagres, o que lhe rendeu popularidade em toda a Europa como protetor de marinheiros e comerciantes, santo casamenteiro e amigo das crianças.

Sua maior marca, reza a tradição, era a generosidade. Um vizinho seu, por exemplo, mandou suas três filhas venderem o próprio corpo para não morrerem de fome. São Nicolau passou três vezes à noite diante da casa do vizinho arruinado, deixando em cada incursão anônima uma bolsa cheia de moedas de ouro.

Segundo uma consultoria de marketing mexicana, a Eventum, Papai Noel é a marca mais poderoso do mundo. Pelas estimativas da empresa, as vendas impulsionadas por sua imagem superam as mais bem-sucedidas campanhas publicitárias de marcas como Microsoft, Coca-Cola, Ford, Sony e Mitsubishi.