10/05/2021

comciencia.br

O Estado como peste

Último artigo do professor Roberto Romano

 

"Caro Ricardo: como não tenho me sentido muito bem, adiantei a redação do texto. Assim, se ocorrer algo, ele estará com você. 

O problema é que tripliquei o espaço concedido. Assim, apelo para sua ajuda e para um copy desk, se você conseguir diminuir o artigo.

Um abraço! Roberto Romano"

A pandemia dizima milhões de pessoas em tempo rápido.  Ela traz a ruína de Estados, economias, sociedades. Ao surgir sem previsão seus ataques corroem culturas, restauram crendices, exasperam a insegurança coletiva. Ela radicaliza tragédias vividas pela Humanidade desde os mais remotos tempos. Um de seus modernos efeitos calamitosos é o acirramento de ideologias. É como se, ao aproveitar a irrupção malsã, formas cruéis de pensamento ressurgissem em todas as nações. O nazismo, o fascismo e forças religiosas retrógradas apresentam caraterística comum, pois desprezam e refazem calúnias contra a ciência, sobretudo no terreno médico. “Deus, Pátria, Família”– o lema dos que defendiam o Sigma – ilustra a nova guinada do poder erguido sobre o irracional. A pesquisa paciente e serena, a busca incessante de fatos e de evidências, as tentativas de localizar remédios, tudo de repente é preterido, vencem as mensagens trocadas na internet. Os atentados misólogos  brotam dos lábios de quem  preside o país. No atual governo ninguém escapa da crendice autoritária, sobretudo os que deveriam gerir a saúde.

Com os Estados mundiais à beira da falência, lideranças demagógicas oferecem a si mesmas qual mezinhas miraculosas para “salvar o povo”. Não contentes em se apresentar como os únicos remédios para a coisa pública, surgem demagogos em todas as praças e templos para recomendar comprimidos fantásticos. Estes últimos, amuletos mágicos, ignoram advertências científicas e são aplicados em doentes numa espécie de curandeirismo arcaico. Trump se diz o remédio para a combalida América do Norte, prescreve cloroquina e demais charlatanices ao povo. Bolsonaro o copia caricata e servilmente. E o pior: médicos aos milhares, mesmo conscientes da falácia, usam semelhantes pílulas em pacientes. No Brasil, o próprio Conselho Federal de Medicina assume atitude irresponsável. Nunca na história a polissemia da palavra grega pharmakon foi tão veraz. Sim, no idioma do qual brota o saber clínico, físico, matemático, astronômico, geográfico, político e filosófico que ainda partilhamos, o vocábulo significa ao mesmo tempo remédio e veneno.

A farsa demagógica une-se de modo traiçoeiro à irresponsabilidade médica. O “tratamento precoce” nada serve para combater o Coronavirus e ainda traz moléstias graves aos doentes. Eis um jeito de eludir o juramento hipocrático : “Jamais administrarei um medicamente mortal a quem quer que seja, por mais solicitações que me sejam feitas; jamais serei o autor de semelhante conselho”([1]) Quase sempre em pandemias unem-se  enfermidades biológicas e  políticas. Uma delas chama a outra, ambas dão-se as mãos assassinas na tarefa de impedir a vida, em especial a partilha saudável do planeta.

Tomo inicialmente um exemplo de teoria política. É famosa a passagem do Leviatã na qual Hobbes aplica algumas doenças ao Estado. Ali, segundo analistas vários, o filósofo chega ao ápice da metáfora sanitária quando aplicada ao coletivo político. ([2]) De fato, a figura do coletivo como um corpo é antiga como a filosofia. Ela foi mesmo usada pelo apóstolo Paulo para significar a Igreja e, durante séculos, foi aplicada às instituições políticas. Com o romantismo do século 19 tal metáfora atinge uma plenitude inédita. ([3])  Ainda na Idade Média um clássico que argumenta segundo tal imagem é João de Salisbury no Policraticus. ([4]) Ernst Kantorowicz mostra o quanto aquela imagem define o moderno pensamento político em Os dois Corpos do Rei.([5]) O corpo empírico do soberano e de seu povo sofrem todas as doenças naturais. E morrem. O corpo do Estado e de seu soberano são incólumes aos desgastes do tempo e do espaço.

Segundo Hobbes existem “coisas que enfraquecem ou tendem à dissolução da república (Common-wealth)” ([6])  O filósofo começa com a “procriação defeituosa” do poder estatal. O Estado foi produzido para durar, mas ele morre, em especial se acometido por moléstias internas. Quando ele perece  por causas internas a culpa deve ser atribuída aos seus fabricantes. Hobbes usa a figura arquitetônica – que tem longa vida antes e depois dele, basta pensar na infra e supra estrutura social segundo Marx – na produção do poder público. Os homens fartos de se matar desejam resistir sob um “edifício sólido e durável”. Mas eles erram ao não fazer leis próprias e a elas ajustar suas ações. Falta-lhes também humildade e paciência para aceitar a ablação das asperezas brutas e grosseiras do edifício. Se  por falta de um arquiteto eles constroem um edifício fraturado que dura apenas o tempo de suas vidas, a estrutura desabará sobre suas cabeças e a de seus próximos descendentes.    

A metáfora arquitetônica é utilizada desde as mais remotas eras para designar a fabricação do Estado ou definir seus defeitos. Sócrates critica os cidadãos de Atenas, estranhas pessoas que se desejam edificar sua casa, contratam o melhor arquiteto. Mas quando elaboram o edifício da polis aceitam qualquer incompetente. Hobbes conhece os textos platônicos e com muita probabilidade aproveita a metáfora para sua análise dos poderes. Assim, entre as doenças da república ele coloca as trazidas pela sua instituição defeituosa. Passo por algumas doenças indicadas pelo filósofo.

Erro primeiro: para garantir a posse de um poder estatal o seu responsável se contenta com um poder menor do que o exigido para manter a paz e a defesa da república. Advertido o mau passo o dirigente precisa usar um poder obrigatório. Então ele é visto como tirânico, ocorrem insurreições. “É como os corpos infantis gerados por pais doentes que se destinam a morrer de modo precoce, ou evacuar, por movimentos da bile ou aparição de pústulas, a má disposição herdada daquela concepção viciosa.” A força do Estado não pode ser menor do que a exigida para as suas funções saudáveis. Um poder sem força é criança adoecida. Nele, os cidadãos ignoram limites e recaem na guerra de todos contra todos.

Permitam que eu deixe a companhia de Hobbes e pergunte: não é a crônica do poder brasileiro que seguimos no Leviatã? A força estatal aqui nasce de uma sincrese anômala de absolutismo, república, aspirações liberais. O poder tem a hegemonia do Executivo mas depende das lideranças oligárquicas cuja sede é o Legislativo. Das perenes tensões entre ambos surgem os apelos ao Judiciário ou às Forças Armadas. O Estado nacional é um aborto (se fôssemos românticos, um Frankenstein…) que não assegura paz alguma no seu imenso território. Daí a prevalência dos cidadãos ricos que podem comprar segurança física, sanitária, social. A força do Estado brasileiro se aplica contra os fracos e se acumplicia aos fortes em termos econômicos, políticos, religiosos.

Continuemos com Hobbes. Quando os dirigentes não usufruem o poder e a força suficientes para garantir a paz, eles se tornam presas dos cidadãos que possuem elos com potências estrangeiras. O autor dá o exemplo de Tomas Becket, Guilherme o Conquistador. Sem poder interno, o plano internacional ameaça, com a conivência de cidadãos locais, a vida do Estado.

Peço outra vez licença para voltar ao Brasil de hoje. O que assistimos nos últimos anos com a Operação Lava Jato? Um grupo de funcionários se descola das leis e do poder nacional e “coopera” com potências estrangeiras da América do Norte ou Europa. Sob o disfarce da “luta contra a corrupção”, magistrados e membros do ministério público cumprem ordens de outros países, ordens que prejudicam a economia e a ordem política interna brasileiras. Tais grupos chegam ao ponto de exigir mudanças na Constituição para atender os desígnios das lideranças externas. As chamadas “Dez Medidas” são um ultimato aos poderes nacionais (Executivo, Legislativo, Judiciário). Sob a capa da moralidade temos a busca de  arruinar empresas nacionais, submeter parte considerável da Justiça a ordenamentos jurídicos estrangeiros (no caso das delações o absurdo chega ao máximo), o que facilita crises inéditas de recessão econômica.

Voltemos a Hobbes. Na república romana, diz ele, nota-se a ausência gradativa de poder interno para ordenar a paz. Surgem dissenções que levam às guerras entre o povo e o senado até “a extinção da democracia romana e o estabelecimento da monarquia”. ([7]) Ironia máxima: o povo que destronara  Tarquínio “o soberbo” volta ao regime execrado porque não teve força suficiente para garantir as instituições “livres”. Arremata o pensador : “Todas as repúblicas cujo poder, por menor que seja, é limitado, devem necessariamente sofrer tais males ou estratagemas”.

Volto ao Brasil. Aqui o poder Executivo federal pratica, como diz Fábio Konder Comparato (no artigo “Réquiem para uma Constituição”) uma contínua ditadura. Resulta que o Estado brasileiro é fraco e os setores que o deveriam sustentar estão sempre atrás de escaramuças ou “estratagemas”. Assim, diante de qualquer ameaça interna ou externa ele não tem força e autoridade para defender seus integrantes, sobretudo os frágeis. Desprovido de força o Estado no Brasil enfrenta uma doença gravíssima, piorada pelos setores ideológicos que hoje o controlam. Refiro-me às ideologias e  opiniões postas pelos fascismos vários que se imaginam acima do Estado e da lei.

Entre as doenças da república, acentua Hobbes, existem as que procedem das opiniões sediciosas. Uma dessas doutrinas enuncia : “Cada particular é juiz das ações boas ou más. Tal coisa é verdadeira no estado de natureza onde não existem leis civis; é verdadeira também num governo civil nos casos não regulados pela lei. Mas em outros casos é evidente ser a lei civil a medida dos atos bons e maus e o legislador (sempre representando a república) é o juiz. A falsa doutrina conduz os homens a discutir os mandamentos da república para em seguida os seguir ou desobedecer segundo o que seu juízo particular. Assim, a república dividida se enfraquece”.

Não apenas Hobbes assume tal posição. Segundo La Boétie, lido como libertário por muitos, as guerras religiosas espalham “um ódio e maldade quase universais entre os súditos do rei” e “o povo se acostuma a uma irreverência para com o magistrado e com o tempo aprende a desobedecer voluntariamente deixando-se conduzir pelas iscas da liberdade, ou licença, o mais doce e agradável veneno do mundo. Isto ocorre porque o elemento popular, tendo sabido que não é obrigado a obedecer ao príncipe natural na religião, faz péssimo uso dessa regra, a qual, por si mesma, não é má, e dela tira a falsa consequência de que só é preciso obedecer aos superiores nas coisas boas por si mesmas, e se atribui o juízo sobre o que é bom e o ruim. Ele chega afinal à ideia de que só existe a lei da sua consciência, ou seja, na maior parte, a persuasão de seu espírito e suas fantasias (…) nada é mais justo nem mais conforme às leis do que a consciência de um religioso temente a Deus, probo e prudente, nada é mais louco, mais tolo e monstruoso do que a consciência e a superstição da massa indiscreta”. Assim, “o povo não tem meios de julgar, porque desprovido do que fornece ou confirma um bom julgamento, as letras, os discursos e a experiência. Como não pode julgar, ele acredita em outrem. Ora, é comum que a multidão creia mais nas pessoas do que nas coisas, e seja mais persuadida pela autoridade do orador do que pelas razões enunciadas”. ([8])

Gabriel Naudé cita a desconfiança universal que obriga o governante a se preservar “dos engodos, ruindades, surpresas desagradáveis” da massa inquieta. Na crise de legitimidade é preciso cautela contra o animal de muitas cabeças, “vagabundo, errante, louco, embriagado, sem conduta, sem espírito nem julgamento… a turba e laia popular joguete dos agitadores: oradores, pregadores, falsos profetas, impostores, políticos astutos, sediciosos, rebeldes, despeitados, supersticiosos”. ([9])

Que outro espetáculo assistimos no Brasil?  Nas redes sociais todo ignaro (já o disse Umberto Eco) sente-se no direito de assumir “verdades” próprias e ignorar leis ou instituições. Setores da extrema direita pregam contra teorias científicas sólidas, negam mesmo a esfericidade do planeta. O mais grave: fazem correr mentiras contra vacinas, isolamento social, louvam curas por meio de remédios venenosos. A todo instante – e o que é pior, instigados pelo governante –  eles saem às ruas para exigir o fim da política, louvam a desobediência às normas. Ataques covardes às minorias são tidos por eles como “exercício do livre pensamento”, “liberdade de consciência”. Adeptos de seitas fundamentalistas dirigidas por pastores milagreiros desafiam ordens emanadas de autoridades sanitárias, colocam a vida coletiva em risco. Mais do que nunca Hobbes atinge o ponto dolorido: diagnostica a dissolução do Estado causada por doenças internas ao corpo da república.

Insisto sobre as seitas que desafiam a saúde coletiva. Hobbes também adverte contra o ensino corrente segundo o qual “a fé e a santidade não poderiam ser atingidas pelo estudo da razão, mas por uma inspiração, uma graça infusa de ordem sobrenatural”. Se for assim, diz Hobbes, “não se vê porque cada um tomaria a lei de seu país como regra de ação em vez da inspiração”. Ou seja, os cristãos não precisariam nem deveriam obedecer as ordens, quaisquer ordens, do poder civil. Tais doutrinas são espalhadas por “teólogos ignorantes”. Para nós brasileiros basta recordar certas figuras como Malafaia, Edir Macedo e outros para nos dar conta da veracidade exposta por Hobbes.

Chegamos à demagogia e ao demagogo, hoje de modo equívoco chamado “populista”. Uma perigosa doença na vida política “é a popularidade de um cidadão poderoso, a menos que a república tenha sólidas garantias de sua lealdade”. De fato, “o povo (…) é desviado por suas lisonjas e pela renomada de um ambicioso, da obediência às leis, e conduzido a seguir um homem do qual ele ignora o que vale e o que deseja”. É por esse meio que Júlio Cesar, sendo sustentado pelo povo contra o senado, ao receber o apoio de seu exército, se tornou mestre do senado e do povo. Quando um ambicioso e popular usa assim uma franca rebelião, adianta Hobbes, podemos dizer que se trata de uma espécie de bruxaria de encantamento. E o teórico cita demagogos notáveis como Manlius, Marius, Cesar em Roma e Alcibíades, Pisistrato e outros em Atenas.

Retorno ao Brasil. Que outra cena assistimos, diferente da narrada acima por Hobbes? Quais garantias tem a nossa pretensa república sobre a lealdade de Jair Bolsonaro? Quanto vale sua palavra ? Sempre o vemos endereçar lisonjas ao “povo”, ou seja, aos seus adeptos, e preparar armadilhas repetidas contra os “inimigos”, os que pensam e agem em sentido contrário ao seu. O abuso da Lei de Segurança Nacional contra seus críticos é de uma clareza solar. Ele dá o exemplo de negação total das leis e da obediência civil. A maioria do povo brasileiro não sabe quem ele é, o que ele vale, o que ele deseja.  Hobbes aponta o dedo certeiro para o demagogo: a sua afinidade erótica com os exércitos. Multidões que se imaginam o todo da república, militares implicados nos planos de Bolsonaro incentivam revoltas da extrema direita, participam de cercos ao Supremo Tribunal Federal. A propaganda, aliás assumida com toda ignomínia por pastores evangélicos, cumpre o papel da bruxaria e feitiço das mentes e corações. Mesmo no Senado nacional Bolsonaro possui seguidores delirantes como ele. Na Câmara dos Deputados a Comissão encarregada de controlar as leis é dirigida com punho de ferro por uma sua entusiasta. Com um golpe mais profundo na república, golpe que virá do conúbio do exército e demais forças com massas populares, teremos uma tirania pior do que a praticada por Júlio Cesar. Este último não se contentou com a ditadura habitual em Roma, de seis meses até anos. Ele se proclamou ditador perpétuo. Dias após cometer tal sandice foi assassinado em plena casa das leis, por senadores romanos.

A dissolução do Estado como doença política toma seus primeiros contornos na  tradução efetivada por Hobbes do monumento de Tucídides, A Guerra do Peloponeso. Retomo aqui um excelente artigo de Onofrio Nicastro ([10]). Quanto ao tema da dissolução estatal Tucídides apresenta duas passagens na História do Peloponeso. O primeiro liga-se à peste em Atenas, o que gera anomia (Hobbes traduz por licentousness). O nosso filósofo usa em outro trecho o termo metabolé (mudanças na constituição da polis) e sedição (é o modo pelo qual Hobbes traduz o termo grego stasis). Doença coletiva e dissolução dos Estados seguem unidas. Em Platão dialusis indica a dissolução dos corpos e a separação entre corpo e alma. Na República (I, 343d) encontra-se o enunciado dialusei tes koinonias (dissolução dos unidos em comunidade).  Como adianta Onofrio Nicastro no artigo citado, “dialusis também se emprega em sentido cósmico. O latim dissolutio pode ter muitos valores: morte, fraqueza ou moleza, mas também abolição (no ‘dissolvere ad crimina ou responsio ad argumenta’) (…) No Renascimento inglês ‘dissolução’ exprime patologias do corpo político (…) o termo designa a) a divisão de um corpo composto de partes constituintes; b) morte e decomposição de um organismo vivo; c) fraqueza ou moleza, no sentido físico ou moral; d) licença ou recusa de obedecer regras, leis ou autoridades; e) dissolver uma ligação, contrato (…) f) a dissolutio mundi (o fim dos tempos, a escatologia”. 

Deixemos Hobbes e seu diagnóstico sobre a dissolução do Estado e da sociedade e passemos aos seus continuadores infiéis do século 18, os filósofos das Luzes. A doença como fator político, ou então a política como enfermidade preocupa as Luzes, o movimento que levantou causas democráticas na defesa dos direitos humanos. Citemos a maior fonte daquele setor cultural do século 18, a Encyclopédie, no artigo “Paz” (autor Étienne Noël Damilaville). A paz é a tranquilidade de um coletivo político, no interior ou exterior. O autor critica Hobbes que “pretendeu estarem os homens sem cessar no estado de guerra de todos contra todos”. A opinião de Hobbes, um filósofo atrabiliário, “não teria melhor fundamento se ele tivesse dito que o estado da cor e da doença são naturais ao homem. Como nos corpos físicos, os corpos políticos são sujeitos a revoluções cruéis e perigosas; embora tais enfermidades sejam os frutos necessários da fraqueza humana, elas não podem ser ditas um estado natural”. A guerra, continua o enciclopedista, “é uma doença convulsiva e violenta do corpo político.  Apenas há saúde no estado natural quando existe a paz. Ela dá vigor aos impérios; ela mantém a ordem entre os cidadãos; ela deixa às leis a força necessária; ela favorece a população, a agricultura, o comércio (…) a guerra despovoa os Estados; ela faz reinar a desordem; as leis são forçadas ao silêncio diante da licença introduzida (…) Suas vítimas sofrem chagas profundas que só a paz pode curar”.

No mesmo instante em que recusa a visão hobbesiana da guerra incessante, o autor identifica o fato bélico a uma doença que abrange tanto os corpos biológicos quanto o corpo artificial do Estado. Damilaville enfatiza as desgraças curadas pela paz, reconhece o poder devastador da guerra mas insiste na harmonia como base do trato coletivo. Tal forma de pensar tem a idade da história. Basta reler os fragmentos de Empédocles,  Heráclito e  Alcmeon de Crotona para recordar o peso da harmonia no plano cósmico e humano. 

Alcmeon tem afinidades com o pensamento pitagórico, sobretudo pela noção de harmonia a ser predicada para o cosmos e para o corpo humano. Ele segue ao mesmo tempo a linha de pensamento segundo a qual “a experiência é a base do saber”. Em fragmento denominado “Sobre a Natureza”, apresenta a passagem dos termos de medicina para a política e vice versa. “A saúde segue vários elementos como seco/molhado, frio/quente/ ácido/doce….todos têm iguais direitos e as doenças ocorrem quando um deles prevalece. A hegemonia de cada um dos elementos diz qual é a causa da destruição. A saúde é a mistura harmoniosa das qualidades opostas”. Assim, à monarquia de um elemento segue-se a morte e à isonomia no interior do todo, a vida. Muitos autores enxergam em tais postulados um Alcmeon democrático. Mas seja qual for a exegese, o fato é que na sua perspectiva a saúde só pode resultar da igualdade entre as forças, internas ou externa ao corpo humano. Se temos um corpo social ou físico desarmônico, beligerante, seguimos para a morte.

Platão, no livro terceiro das Leis se ocupa das mudanças em regimes políticos no quadro da instabilidade essencial de tudo o que reside no tempo. Vou reter apenas o tratamento e a pessoa que, segundo ele, podem salvar o corpo político de suas doenças auto imunes. No Político ele aponta a arte de curar doenças institucionais, um tipo de medicina. Os governantes/médicos “se  comandam com aprovação ou contra a opinião dos governados, se norteiem ou não leis escritas; sejam ricos ou pobres, precisamos considerá-los (…) como lideranças pelo fato de que eles mandam com técnica (tekhnè) por algum tipo de autoridade (arkhè). Os médicos  oferecerem um bom exemplo para tal ponto de vista. Nós os julgamos médicos quer eles nos curem bom grado nosso ou pela força, que eles nos cortem ou queimem ou nos apliquem algum tratamento doloroso, quer eles sigam regras escritas ou delas se dispensem, quer sejam eles pobres ou ricos; não hesitamos em chamá-los médicos, enquanto exercem autoridade  seguindo a arte (tekhnè), e enquanto eles nos purgam ([11]) ou diminuem nosso peso ou por todo outro meio o aumentando, pouco importa, eles o fazem para o bem de nosso corpo, melhorando seu estado e assegurando a saúde dos seres que lhes foram confiados. Eis, o que penso, em qual via e em qual única via é preciso buscar a correta definição da medicina e de toda outra arte” (293, a-c).

Obom governante segue a técnica, a ciência, e purga o corpo social adoecido pela demagogia, pelas rebeliões, desobediência às leis etc. Na tirania o governante age como um médico às avessas. Em vez de retirar do corpo  coletivo o doentio, dele extrai os elementos vitais, os troca pelas doenças que matam o corpo e a alma da polis. Entre vários atos do tirano, um estratégico é se livrar dos aliados que o conduziram ao poder se eles criticam a perda dos limites por parte do governante. O tirano se prepara contra eles e começa a fazer uma purga ([12]) na cidade. Trata-se de um procedimento “exatamente oposto ao efetivado pelos médicos sobre nossos corpos. Pois enquanto os médicos removem o pior e deixam o melhor, ele faz o inverso” para garantir o poder.

Termino: o que assistimos no mundo, sobretudo na política de extrema direita e no Brasil é o adoecimento simultâneo dos indivíduos e grupos e da sociedade e seu Estado. O enunciado hipocrático sobre a doença e as crises está em pleno vigor nos dias atuais. A crise, diz o texto atribuído a Hipócrates, é difícil. Nela se decide o destino da moléstia e da pessoa adoecida (ἡ δὲ κρίσις χαλεπή). É no momento oportuno (kayrós) da crise que o médico prova perícia e saber. Com Maquiavel aprendemos que no instante certo, nem antes nem depois, o príncipe age com segurança para si ao salvar os governados.

Não temos nenhum médico no poder brasileiro, apenas um arremedo de governante desprovido de saberes científicos e deles inimigo. A doença biológica e política se alastra de modo incontrolável. Vivemos sob o regime da Peste. É notável como, à semelhança do tirano platônico, Bolsonaro “purga” os aliados que lhe trouxeram o poder. Sergio Moro é apenas um exemplo. Muitos de seu primeiro círculo governamental passam pelo procedimento que a imprensa vulgarmente chama de “fritura”. Não por acaso entre os que sofreram a “purga” estão ministros da saúde, um após outro.

Durante bom tempo ocorreu um debate nos meios acadêmicos sobre o enunciado de Karl Marx ao se referir no Manifesto Comunista à burguesia. Sob o capitalismo e suas classes dominantes “tudo o que é sólido se dissolve”. Além das conotações químicas em voga na sua época lembremos que Marx era pensador político. Ele conhecia os textos de Platão, Aristóteles, Hobbes e muitos outros. Não é por acaso que, ao identificar a atividade capitalista como dissolvente de todos os laços coletivos, ele capta a essência da política movida por empresários e seus sócios do poder, os militares e juristas. Se tomarmos a sequência que vai de Platão e segue para Aristóteles caminhando para a filosofia moderna e contemporânea, vemos que a cautela dos pensadores é com a dissolução dos elos entre humanos. Tal doença é auto imune mas suas consequências se espraiam por toda a natureza, como evidencia o que convenciona-se chamar “questão ambiental”. Com o capitalismo e sua tirania tudo se dissolve. A morte, a guerra de todos contra todos, a violência bruta e a escravidão surgem como vampiros do sangue humano. A tirania Bolsonaro não é exceção, mas regra. “Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de ideias secularmente veneradas; as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes de se ossificar. Tudo que era sólido e estável evapora, tudo o que era santo é profanado, e os homens se obrigam finalmente a olhar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas “([13]).

Em sua síntese da história mundial Marx recolhe a prudência dos filósofos antigos e modernos. E acrescenta à diagnose do horror a técnica predatória do capitalismo que dissolve laços políticos até que sobre apenas o fantasma do ouro, sangue coagulado de humanos aos milhões no altar do lucro. A pandemia não é  acidente: ela foi preparada por séculos de exploração das classes trabalhadoras, o que as tornou vulneráveis a todas as doenças. Hoje o culto do PIB, do mercado que dissolve os laços de humanidade é o impulso para desestabilizar e dissolver qualquer Estado soberano. Bolsonaro é  fruto de tal voragem, mas não deixa de ser culpado e transmissor de moléstias, a biológica e a política. As mortes aos milhares ocorridas sob suas zombarias, falas enganosas, agressões às leis e seu desprezo pelas ordens médicas e sanitárias fazem todo leitor cultivado recordar o tirano da República. Um homem sedento de poder que, ao saborear gotas de sangue, gosta, e quer sempre mais líquido vermelho. A taça purulenta, servida todo dia no palácio do Planalto, nunca está vazia.

Roberto Romano da Silva é professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Autor de vários livros, entre eles Brasil, Igreja contra Estado (Editora Kayrós, 1979), Conservadorismo romântico (Editora da Unesp), Silêncio e ruído, a sátira e Denis Diderot (Editora da Unicamp), Razão de Estado e outros estados da razão (Editora Perspectiva).

 

 

 

 

 

 

 

 

Quinho Ravelli

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas

(1) Οὐ δώσω δὲ οὐδὲ φάρμακον οὐδενὶ αἰτηθεὶς θανάσιμον, οὐδὲ ὑφηγήσομαι ξυμβουλίην τοιήνδε· A professora Maria Sylvia Carvalho (Unicamp) desenvolve há longa data uma ampla pesquisa sobre a política e a medicina. Boa parte do presente artigo é fruto de longos diálogos com a autora. Os erros e/ou equívocos são naturalmente meus. RR

(2) A bibliografia é imensa. Cito apenas aqui Hale, D. Body Politic, a political metaphor in Renaissance English literature (The Hague, 1971).

(3) Ainda plenamente útil o livro de F.W. Coker: Organismic Theories of The State, ninteteenth century interpretations of the State as organism or a Person (Longmans, Green & Co. 1910).

(4) Uso a excelente edição de Ladero, M.A. e outros : Policraticus (Madrid, Editora Nacional, 1984).

(5) Tradução de Cid Knipel, (Ed. Companhia das Letras,1998). 

(6) Leviatã, cap. 29.

(7) “to the Extinction of their Democracy, and the setting up of Monarchy” (Ed. C.B. Macpherson, p. 365). 

(8) “Mémoires de nos troubles sur l´Édit de janvier” 1562 in  “Une oeuvre inconnue de la Boétie. Les mémoires sur l ´Édit de janvier 1562” . Editado por Paul Bonnefon. In Revue d´Histoire littéraire de la France. 24e année. 1917. Paris. Librairie Armand Colin, 1917.

(9) Considerações Políticas sobre os golpes de Estado (1639) . Há uma fonte comum a todos esses juízos sobre a multidão que imagina ser livre para opinar sobre tudo e sobre todos sem conhecimento de causa. Como sempre, é Platão a origem de tal crítica contra a massa que se limita à doxa sem epistême. O povo ignaro é θηρίου ποικίλου καὶ πολυκεφάλου (uma besta feroz multicolorida e de muitas cabeças. Rep.. 588c. Carl Schmitt, ideólogo da ditadura e do nazismo, radicaliza como é a praxe no pensamento autoritário,  tal enunciado platônico. Cf. La dittatura, dalle origine dell’idea moderna di sovranità alla lotta di classe proletaria (Bari, Laterza, 1975), p. 22. No mesmo passo Schmitt cita o Sofista de Platão (226a) onde o homem é domado de vários modos: pela pirataria, ladroagem, tirania e por toda a arte da guerra, todos jeitos de caça coletiva. E também pela arte de legislar, conversar ou pelo simples nome chamado. As caçadas definem a vida coletiva e individual. Outra coisa não fazem os fascismos do que transformar a vida coletiva em caça. aos “inimigos” do governante.

(10) “Le vocabulaire de la dissolution de l Etat” in Zarka, Y.Charles: Hobbes et son vocabulaire, études de lexicographie philosophique (Paris, Vrin, 1992), p.260 e ss.

(11) Purga tem grafado καθαίρω, purificar, limpar.

(12) A palavra de origem é καθαίρω (da pessoa ou coisa purificada, purgada, limpa). O termo pertence ao mesmo campo semântico ao empregado por Platão para falar no Político sobre o correto estadista/médico.

(13) “Alle festen, eingerosteten Verhältnisse mit ihrem Gefolge von altehrwürdigen Vorstellungen und Anschauungen werden aufgelöst, alle neugebildeten veralten, ehe sie verknöchern können. Alles Ständische und Stehende verdampft, alles Heilige wird entweiht, und die Menschen sind endlich gezwungen, ihre Lebensstellung, ihre gegenseitigen Beziehungen mit nüchternen Augen anzusehen”

[1] Οὐ δώσω δὲ οὐδὲ φάρμακον οὐδενὶ αἰτηθεὶς θανάσιμον, οὐδὲ ὑφηγήσομαι ξυμβουλίην τοιήνδε· A professora Maria Sylvia Carvalho (Unicamp) desenvolve há longa data uma ampla pesquisa sobre a política e a medicina. Boa parte do presente artigo é fruto de longos diálogos com a autora. Os erros e/ou equívocos são naturalmente meus. RR

[2] A bibliografia é imensa. Cito apenas aqui Hale, D. Body Politic, a political metaphor in Renaissance English literature (The Hague, 1971).

[3] Ainda plenamente útil o livro de F.W. Coker: Organismic Theories of The State, ninteteenth century interpretations of the State as organism or a Person (Longmans, Green & Co. 1910).

[4] Uso a excelente edição de Ladero, M.A. e outros : Policraticus (Madrid, Editora Nacional, 1984).

[5] Tradução de Cid Knipel, (Ed. Companhia das Letras,1998).  

[6] Leviatã, cap. 29.

[7] “to the Extinction of their Democracy, and the setting up of Monarchy” (Ed. C.B. Macpherson, p. 365). 

[8] “Mémoires de nos troubles sur l´Édit de janvier” 1562 in  “Une oeuvre inconnue de la Boétie. Les mémoires sur l ´Édit de janvier 1562” . Editado por Paul Bonnefon. In Revue d´Histoire littéraire de la France. 24e année. 1917. Paris. Librairie Armand Colin, 1917.

[9] Considerações Políticas sobre os golpes de Estado (1639) . Há uma fonte comum a todos esses juízos sobre a multidão que imagina ser livre para opinar sobre tudo e sobre todos sem conhecimento de causa. Como sempre, é Platão a origem de tal crítica contra a massa que se limita à doxa sem epistême. O povo ignaro é θηρίου ποικίλου καὶ πολυκεφάλου (uma besta feroz multicolorida e de muitas cabeças. Rep.. 588c. Carl Schmitt, ideólogo da ditadura e do nazismo, radicaliza como é a praxe no pensamento autoritário,  tal enunciado platônico. Cf. La dittatura, dalle origine dell’idea moderna di sovranità alla lotta di classe proletaria (Bari, Laterza, 1975), p. 22. No mesmo passo Schmitt cita o Sofista de Platão (226a) onde o homem é domado de vários modos: pela pirataria, ladroagem, tirania e por toda a arte da guerra, todos jeitos de caça coletiva. E também pela arte de legislar, conversar ou pelo simples nome chamado. As caçadas definem a vida coletiva e individual. Outra coisa não fazem os fascismos do que transformar a vida coletiva em caça. aos “inimigos” do governante.

[10] “Le vocabulaire de la dissolution de l Etat” in Zarka, Y.Charles: Hobbes et son vocabulaire, études de lexicographie philosophique (Paris, Vrin, 1992), p.260 e ss.

[11] Purga tem grafado καθαίρω, purificar, limpar.

[12] A palavra de origem é καθαίρω (da pessoa ou coisa purificada, purgada, limpa). O termo pertence ao mesmo campo semântico ao empregado por Platão para falar no Político sobre o correto estadista/médico.

[13] “Alle festen, eingerosteten Verhältnisse mit ihrem Gefolge von altehrwürdigen Vorstellungen und Anschauungen werden aufgelöst, alle neugebildeten veralten, ehe sie verknöchern können. Alles Ständische und Stehende verdampft, alles Heilige wird entweiht, und die Menschen sind endlich gezwungen, ihre Lebensstellung, ihre gegenseitigen Beziehungen mit nüchternen Augen anzusehen”